Tentando viver novamente
King passou muito tempo sozinho e abandonado em seu lugar na estante do porão. Com seus olhos eternos, observou marionetes ganhando vida e morrendo durante todos os dias. Observou novas almas sendo capturadas e velhos corpos sendo descartados no lixo. Durante todos os segundos se sua meia-existência, ele via tudo.
Durante todo o tempo, não conseguia pensar em outra coisa: procurar Victoria. Ele já sabia que ela estava em Berlim, talvez em algum outro teatro diabólico. Em sua cabeça, planejou minuciosamente como poderia escapar daquele show de horror. Decorou todos os movimentos, hábitos e rituais de Laszlo e Emerência, nos mínimos detalhes.
Mas ele pensava à toa, pois seu corpo era frágil e sem vida. Sem seu sangue, não conseguiria fazer nada a não ser pensar. E do que adiantava pensar por todo esse tempo? Ele não iria ver Victoria deste jeito. Quanto mais o tempo passava, mais ele perdia as forças e a razão do ser.
King não sabia mais definir o tempo, e para ele era tudo um inferno atemporal e infinito. Algumas semanas se passaram e o Mestre de Marionetes finalmente começou a mexer com ele novamente. Durante 9 dias, King voltava à vida com seu sangue, e seu corpo morria logo em seguida depois do treino.
Começou a colocar seu planejamento em prática. Ele tinha que fazer alguma coisa. Enquanto agonizava em sua consciência dentro de seus olhos, ele se tornou a melhor das marionetes. Aprendeu a se mexer mais fluidamente do que jamais outro boneco conseguiria. Acabou toda e qualquer ordem do seu novo pai, o tornou orgulhoso.
King, com aquele corpo mais do que grotesco, era o melhor.
Em um de seus treinamentos, ele aproveitou um instante de distração de Laszlo e enquanto andava ritmado de um lado para o outro, chegou perto de onde Emerência guardava as seringas e jogou uma delas embaixo da estante.
Por mais várias semanas, King esperou que Emerência errasse. Tudo que ele precisava era que fosse aplicado um pouco mais de sangue que o normal nele. Ele tinha que conseguir se mover sozinho, sem a supervisão de seus pais. Era tudo em vão, Emerência era muito boa no que fazia.
Houve um dia em que King foi fazer um show para o Mestre de Marionetes. Ele foi esplêndido, perfeito. A plateia se apaixonou pelos movimentos daquele boneco feio e bizarro. Ao voltar para o porão depois do show, King resolveu fingir estar completamente morto novamente. Sua maestria foi tanta, que ele mesmo teve a impressão que até seus olhos eternos haviam morrido.
Quando o Mestre e sua esposa colocaram-no de volta ao seu lugar na estante e saíram do porão, King viveu novamente. Não acreditou na sorte que teve e na oportunidade que estava tendo. Se jogou da estante e caiu no chão. Um som abafado e uma mistura de panos e corpo artificial se espatifando no chão de pedra.
King começou a se arrastar para onde ele tinha jogado a seringa há algum tempo. Seu corpo já estava fraco devido ao show e à queda. Não desistiu e continuou a rastejar. Conseguiu pegar a seringa, e foi imediatamente para um dos jarros de sangue da sala. Mais cedo, Emerência havia usado aquele jarro para injetar sangue nele, então ele tentou o mesmo. Com sangue suficiente, ele poderia sair de lá.
Passou vários minutos tentando segurar a seringa direito, e mais ainda tendo dificuldades em colocar o sangue dentro dela. A cada segundo que passava, a alma de King suava frio, com medo de que seus pais o vissem fazendo algo que não deveria. Eles não vieram, e King finalmente conseguiu injetar sangue nele mesmo.
Em questão de segundos, ele começou a sentir seu corpo quente. Enquanto o sangue fluia dentro dele, a dor veio. Imediatamente ele se lembrou do ritual e de toda a tortura e sofrimento que passou antes de se tornar uma marionete. Entrou em desespero. Caiu no chão, com a seringa do lado, e começou a se contorcer de dor. Era como se ele tivesse injetado um ácido extremamente corrosivo dentro de si.
Suas memórias ficaram confusas. Seus olhos eternos começaram a, pela primeira vez, falhar. Por um instante, sentiu a morte se aproximar e teve um dos maiores medos que já tivera. Aquele sentimento era tão ruim, que até esqueceu de Victoria. Sua visão se tornou turva e seu corpo de marionete estava tendo tiques involuntários. Foi então que sua consciência foi se apagando, quando ouviu:
– Hahaha meu filho… Por que você usou o sangue de outra alma?
E King apagou.