Escuridão

Durante os 13 dias que se seguiram, King e Victoria treinaram e treinaram como andar sozinhos. Aprenderam novamente como se movimentar novamente, como bebês que nasceram à pouco tempo. Aprenderam como alongar seus corpos e suas peles. Não havia mais nada o que fazerem e estas ações eram sua única esperança de vida.

Toda vez que treinavam, Emerência pegava seus respectivos jarros de sangue e injetava pequenas quantidades. Toda vez que King e Victoria sentiam a picada e o sangue quente entrando em seus frágeis corpos, eles viviam novamente. Seus sangues, originais, de uma vida passada, os lubrificava.

Nossos olhos agora são nossas mentes

Nossas almas… São nossa pele mágica

Nossos sangues… São de nossas vidas passadas

Quando reviviam na escuridão, tinham uma hora para aproveitar a vida temporária que o Mestre e sua esposa lhes dava.

Na escuridão, vivemos nossas vidas…

Na escuridão, morremos novamente… E novamente, e novamente

Todos os dias, King e Victoria treinavam e usavam os restos de sangue para se comunicar com os olhos, cada um em sua estante. Eles tentavam relembrar os bons momentos que tiveram um com o outro. Era tudo o que restava pra eles, e naquela situação era o suficiente, valia a pena.

Depois de 2 semanas de treinamento, o Mestre de Marionetes estava satisfeito com o progresso dos dois e resolveu deixá-los fazer algo novo. Ordenou:

– Esta noite você irá dançar para mim, garota marionete. Irá dançar para mim, sem fios em você.

Victoria ficou nervosa com a notícia. Apenas 13 dias haviam se passado, e ela não sabia dançar. Ela nunca tinha dançado. Ela não tinha a mínima chance. E o Mestre de Marionetes não podia saber o que se passava nos olhos dela. Depois de tirar todos os fios da marionete, ele novamente ordenou:

– Dance!

E Victoria começou a dançar. Deu o seu melhor, improvisando danças que ela não fazia ideia de que eram possíveis. Mal havia aprendido a andar sozinha e já estava dançando para o seu Mestre. Laszlo se divertia.

Em um de seus passos desastrosos, Victoria tropeçou em sua própria perna e cai pra frente, atingindo uma das estantes em cheio. Em alguns segundos que pareciam um lapso temporal interminável e agonizante, 6 jarros de vidro caem no chão e se quebram.

O Mestre de Marionetes se enfureceu e bateu com as duas mãos naquele chão cheio de vida das marionetes, cheio de sangue. Ele olha para Victoria com sangue nos olhos e grita para Emerência:

– Mande ela embora! Quero ela bem longe daqui!

King, que observou tudo que aconteceu naquela escuridão, ficou quase catatônico ao ouvir as palavras de Laszlo. E o Mestre complementou:

– Para o outro teatro… Amanhã de manhã eu quero ela fora daqui. Mande-a para Berlim. Mande esta marionete estúpida para Berlim.