O Mestre de Marionetes

Era noite de natal e na Kárpát utca em Budapeste, haviam tantas pessoas na fila que King não conseguia acreditar. O show deveria ser muito bom para tirar todas aquelas pessoas de suas casas em pleno natal. Naquela rua, a atmosfera era de uma noite escura e sem brilho, mas mesmo assim, um sentimento de mistério e curiosidade tomava conta daquelas pessoas, incluindo King. Era uma noite e tanto para assistir um show de natal.

As pessoas foram entrando no teatro, que não era tão grande e comportava por volta de 250 pessoas. King, que já se encontrava na fila, foi chegando perto da entrada, quando percebeu que quem estava recebendo-os era Emerência, que estava praticamente com as mesmas roupas de quando ele a viu pela primeira vez. Alguma coisa naquela mulher despertava uma curiosidade sutil em King. Quando ele chegou na entrada, Emerência deu um pequeno sorriso de canto da boca, pegou o dinheiro do ingresso e pediu para King ir entrando e escolhendo o seu lugar.

Sentou-se mais ou menos no meio da plateia, nem muito perto do palco, nem muito longe. O teatro por dentro tinha uma atmosfera escura e sombria, tanto quanto a noite lá fora. Lâmpadas à gás iluminavam um pouco mais, perto do palco. As cadeiras começavam a encher. King olhou em volta e percebeu que apesar de que a noite seria de um show de marionetes, o publico era em sua maioria adulto. Não conseguiu enxergar nenhuma criança, no mínimo alguns jovens com 18 anos. Ficou pensando se aquele pessoal também era como ele, que estava sozinho ali.

Percebeu que ele nem sabia do que se tratava o tema do show. Naquele dia em que conheceu Emerência, ela foi tão direta e convincente que cativou ele espontaneamente. King não se preocupou nem um pouco sobre aquilo, ele tinha apenas o simples desejo de assistir ao show.

Enquanto seus devaneios corriam pela mente, uma moça se sentou do lado dele. Ela parecia estar sozinha, e aos olhos de King era linda. Ele tentava disfarçar um pouco o olhar, mas dava pra perceber que ficou um encantado com ela. Já ela, estava achando ele muito esquisito e se sentia um pouco incomodada com aqueles olhares. King ficou um pouco constrangido com suas próprias ações e fez um esforço grande pra não olhar mais pra ela.

Acabou conseguindo.

Emerência deixou entrar uma última pessoa e logo fechou a porta principal do teatro. O ambiente ficou um pouco mais escuro do que já estava e o palco agora estava bem mais em destaque. Quando todas as pessoas já estavam sentadas em seus lugares, conversando, desejando um feliz natal para quem estava perto, e depois de alguns minutos, Emerência aparece na frente do palco e anuncia:

– Bem vindos! Bem vindos ao incrível show do Mestre de Marionetes Laszlo! Um show especial para todos vocês que apreciam a fantasia! Nesta noite de natal, nós lhe daremos um show único, como vocês jamais irão ver!

Ao terminar de anunciar o começo do show, Emerência se pôs ao lado do palco e mexeu em alguns mecanismos. A cortina negra começou a subir e o silêncio envolto de mistério imperou sob a plateia. Um boneco de marionete se encontrava no meio do palco, sentado, inerte. O cenário era simples e representava uma noite de neve como qualquer outra.

Então apareceu um outro marionete, do canto do palco. E depois, logo atrás dele já veio outro. Os dois começaram a andar em direção ao marionete parado. O Mestre de Marionetes estava mais em cima, controlando os bonecos com seus fios nas mãos. Esbanjava uma maestria impressionante na movimentação dos bonecos, tão fluidos que King ficou impressionado e até esqueceu da moça ao seu lado.

As marionetes se encontraram mais ao centro do palco e de repente os três estavam se movendo! A plateia fazia sons de surpresa e admiração. O Mestre de Marionetes deveria ser alguém muito talentoso para conseguir mover daquele jeito três bonecos ao mesmo tempo. Quando menos se esperou, os bonecos estavam se movendo por todo o palco, divertindo e impressionando a plateia. No fundo, algumas tradicionais cantigas de natal tocando. Não havia um enredo evidente naquilo tudo, mas o ambiente, as músicas e os movimentos das marionetes deixavam a plateia satisfeita.

King achou os bonecos feios, horríveis. Eles eram grandes, mais ou menos do tamanho de crianças de 3 a 4 anos. Tinham o corpo completo e pareciam pesados. Cada um com ma roupa diferente. Os olhos estranhos fora o que mais chamou a atenção de King. Passou pela mente dele que eram marionetes grotescos, como se fossem crianças doentes com a praga.

E o show continuou. Quando as coisas estavam começando a ficar repetitivas, a música começou a ter um tom mais dramático (e horripilante). De repente, o Mestre de Marionetes puxou um dos fios e soltou uma perna de um, puxou outro fio e soltou uma cabeça de outro boneco, puxou mais um e em seguida soltou todos os fios. Por um instante, os bonecos pareciam que iam cair e ficar sem movimento, mas para a supresa de todos nenhum caiu.

Todas as marionetes ficaram de pé. E depois de um instante, continuaram a se mover.

Toda a plateia levantou de suas cadeiras e aplaudiu, incluindo King. No meio dos marionetes estava um Little Drummer Boy (Pequeno Tocador de Tambor) tocando a sua musiquinha clássica. A plateia começou a sentar novamente, quando King olhou naqueles olhos bizarros do marionete e sentiu um frio na espinha. Ele pensou:

– Não… Eu acho que ele olhou pra mim… Ele está vivo!?

Terminou de se sentar, com o coração batendo forte e desconfiado, olhou para o seu lado. Sem querer, seus olhos se encontraram com os da moça ao lado, e por alguma razão o constrangimento anterior desapareceu. Por alguns segundos, continuaram olhando um para o outro, como se encontrassem alguém que os entendiam.

Os dois estavam assustados.

Mesmo assim, King voltou seu olhar para o show e continuou assistindo, impressionado, hipnotizado. O show continuava a lhe trazer um sentimento mágico e misterioso. No final da música de tambores daquele marionete, King nota um minúsculo corte na mão esquerda do marionete. E naquele corte havia uma mancha vermelho escura.

– Sangue! – Pensou King.

O show foi acabando, junto com sua magia. Apesar de um pouco assustado, King ficou bem calmo e sereno. Não era a primeira vez que a imaginação dele trazia sentimentos tão à flor da pele nele.

Laszlo, o próprio Mestre de Marionetes, agora estava no meio do palco, cercado pelas suas crianças. Todos aplaudiram com muito fervor, enquanto as cortinas se abaixavam e o show acabava. As pessoas conversavam, comentavam, todas felizes. Não tinha como não amar todo aquele espetáculo. E foram saindo do teatro.

Perto da porta principal, a moça estava andando na frente de King. Por algum impulso que não era normal nele, tocou no ombro dela e falou:

– Me chamo King. Espetáculo incrível, não? – Oi, sou Victoria. Incrível é pouco… Nunca vi nada assim.

E o que antes era constrangedor, agora os dois se sentiram confortáveis um com o outro. Saíram juntos do teatro naquela noite incrível.