Sangue para andar
Um dia depois, lá estava King sentado em uma estante daquele porão maldito, olhando para todos as outras marionetes. Seus últimos restos agora eram um maldito boneco.
King podia ver, mas não podia se mexer. Era muito estranho para ele, pois ainda tinha sentimentos, mesmo sem seu corpo. Seus olhos observavam todo o ambiente escuro, procurando alguma resposta. Todas as marionetes, mesmo com olhos, estavam mortas.
Mais um dia se passou e King não parou um segundo sequer de olhar. E nem se quisesse ia conseguir. O ritual tornara seus olhos eternos, olhos que nunca dormiam. E foi então que King percebeu os olhos de Victoria em uma outra estante. Mesmo naquele escuro, ele não tinha mais dúvidas: aqueles eram os olhos da sua amada Victoria. Ela estava lá, sozinha e muito morta.
Algumas horas depois, King enxergou uma luz vindo de uma das portas do porão. Uma luz na escuridão era algo que King nem esperava mais ver. E então entraram o Mestre de Marionetes e sua esposa, com sorrisos na cara. O Mestre então falou com um tom de empolgação:
– Olá crianças! Mamãe e Papai chegaram. Agora vamos brincar… Com sangue, vou ensiná-los tudo que precisam saber.
Então pegou Victoria e a colocou sentada no chão. Em seguida pegou King e o colocou também sentado ao chão, de frente para Victoria. Duas das mais grotescas marionetes já feitas. Laszlo então começa a amarrar fios nas mãos, pés e cabeça dos dois. King observava tudo, inclusive os olhos mortos de Victoria.
Quando todos os fios estavam no lugar, o Mestre começou a fazer movimentos com os dois. De repente, King sente uma picada, seguida de um formigamento estranho, que estava fora de seus olhos eternos. Era Emerência injetando o sangue dele com uma seringa, dentro do corpo da marionete. King sentia aquele sangue quente como se percorresse suas veias inexistentes.
Enquanto fazia o mesmo com Victoria, ele começou a sentir cada vez melhor seu novo corpo. Laszlo levantou as duas marionetes, deixando-os em pé, olhando um para o outro. Foi aí que King percebeu que a sua amada estava lá na sua frente. Aqueles olhos estavam vivos novamente. Se pudesse chorar de emoção, King teria feito. Ele não podia acreditar que a sua amada Victoria estava de volta à sua frente, viva.
O Mestre de Marionetes começa a falar:
– Sangue para andar, sangue para ver, sangue para ser…
Com suas mãos habilidosas, começa a fazer com que os dois começassem a andar, bem devagar. Ambos sentiam pontadas em sua pele, dos fios que os controlavam. Aos poucos, eles perceberam que podiam também, se mexer por suas vontades.
Durante cada movimento, os dois aproveitavam a chance de olhar um para o outro. Era um show de horror. O amor era tão grande entre os dois, que ambos acreditaram que estavam se comunicando sem palavras, pelos olhos. Eles podiam sentir e entender, no fundo de suas consciências, os sentimentos um do outro.
E o que ambos mais sentiam era tentar entender porque isso havia acontecido justo com eles, e como suas mentes podiam estar dentro de seus olhos.
– Sangue para andar, sangue para ver, sangue para ser…
Os dois estavam vivos. Se moviam. O Mestre de Marionetes ficou satisfeito com o resultado, achou que já era o suficiente pelo dia e os colocou de volta em seus lugares na estante.