O Ritual

King continuou preso, sozinho, indefeso, desesperado, chorando, por uma hora, até que Laszlo, o Mestre de Marionetes, e sua esposa Emerência chegaram. Olharam imponentes para King, mas não falaram nada. King, com suas esperanças quase no fim, continuava em choque e não conseguia falar nada para eles. Tudo o que conseguia era continuar olhando para os olhos de Victoria.

Enquanto Laszlo olhava para King, Emerência acendia algumas lâmpadas de gás no porão. Com aquela pouca luz sombria, podia se perceber outros detalhes no porão, e não apenas as marionetes. Havia uma estante com livros antigos, daqueles que estão para se deteriorando. Em uma mesa, em um canto, podia-se ver caveiras humanas de diversos tamanhos.

Em algumas partes das paredes do porão, havia também estranhos símbolos pintados do que parecia ser uma tinta de um vermelho tão escuro que parecia preto. Laszlo e Emerência começaram a acender várias velas pretas e colocar perto das paredes e no chão de pedra. No centro, havia um altar.

Emerência tira as correntes de ferro de King e contra a sua vontade, o carrega e o põe deitado no altar. King estava muito fraco para conter a força de Emerência, e nada conseguia fazer. Emerência continua segurando ele pelas mãos, enquanto King se debatia. Tentou tanto que gastou todas as suas forças, estava completamente exausto. Parou, olhou para o teto temendo por sua vida.

Inconformado com a situação e sem mais forças, se entregou e olhou em direção aos olhos de Victoria em uma das marionetes na estante. Além das marionetes, haviam também jarras de vidro com um líquido escuro dentro. Para cada uma das marionetes, um jarro.

Enquanto Emerência continuava a segurar King pelos braços, O Mestre de Marionetes começou a murmurar palavras mágicas, de tempos antigos…

Oculi videre non possunt

Anima autem non potest loqui

Um silêncio mortal tomou o porão, e King começou a sentir estranho, não podia falar. O fogo das velas se tornou mais forte, como se estivesse criando micro-explosões.

E o Mestre de Marionetes então começou a falar mais alto:

Nictuna irum maha

Nictuna irum orik

Beze magusde ou dazuribe leie orivan

King sentiu sua mente começar a se esvaziar. Sua visão escureceu e seus olhos reviraram para cima, deixando apenas a parte branca do glóbulo à vista. Sua boca estava aberta como quem queria gritar, mas nada saia. Sua língua entrava e saía da boca como se estivesse vomitando. Dentro de si, seu estômago se contorcia, seu coração batia mais forte do que jamais batera.

O Mestre continuou:

Nictuna irum maha

Nictuna irum orik

Douvo irum de berbu leie dikatium

King então sentiu algo invadindo sua consciência. Ele sentiu como se aquela entidade estivesse roubando sua alma. King havia desistido e perdido todas as esperanças, mas o desespero de ter sua alma tirada dele o fez ter um pouco de força e, em pânico, chutou um suporte de luz que havia do lado do altar e do Mestre de Marionetes.

O suporte caiu forte em uma das estantes e derrubou um dos jarros de cima no chão. Laszlo interrompe suas palavras e por um instante King recupera a visão e olha para o jarro quebrado no chão. Era tudo vermelho. Muito vermelho.

– Tão vermelho… SANGUE! - pensou, tentando gritar mas sem conseguir.

O Mestre de Marionetes se enfureceu e gritou para King:

– Como você ousa interromper o meu trabalho!?

Então Emerência bateu forte e repetidamente com um pedaço de madeira nas duas pernas de King, que sentiu mais dor. Suas pernas então nem podiam mais se mexer direito.

O Mestre de Marionetes esfrega as mãos no chão cheio de sangue e começa a manchar os símbolos de caveiras demoníacas na parede, fazendo-os ficar mais vermelhos. Depois volta para o altar, fica ao lado da cabeça de King e continua seu ritual:

Nictuna irum maha

Nictuna irum orik

King então perdeu a visão completamente, e sentiu uma picada aguda em seus olhos. E com essa picada, sua alma foi direto para seus olhos e ficou presa dentro deles. Por um momento a dor passou e ele se sentiu imortal.

O Mestre de Marionetes sabia bem como trocar almas com aquele demônio. Para ele aquelas almas eram como ouro.

O ritual acabou e King, ainda imóvel, foi solto por Emerência. Ele ficou ali, deitado naquele altar condenado. Aos poucos foi voltando a sentir dor. Sua visão e seus sentidos voltaram. Exausto, não conseguia fazer nada além de continuar deitado, arruinado, então desmaiou.