Emerência
King escreveu um recado e deixou em cima da mesa, perto da entrada de casa. Caso Victoria voltasse enquanto ele estivesse procurando por ela, ele estaria em casa com certeza até à meia-noite. Estava mais frio do que o normal lá fora, então colocou um casaco bem grosso e saiu à procura de sua amada. Seu rosto estava mais pálido do que nunca, devido à tanta preocupação.
Chegou no teatro e a rua estava completamente vazia, tudo fechado. Naquele escuro, as sombras criadas pela lua aparentavam estar grossas e velhas. King pensou que eles poderiam ter ido ao show desse ano, se Victoria tivesse voltado cedo para casa, e era isso que ele achava que ela iria fazer. Mas o show daquela noite já havia acabado há algum tempo.
Procurou algum lugar aberto por perto. Nada. Olhou nas ruas em torno do teatro e não encontrou uma alma viva sequer. Voltou ao teatro, suspirou e sentou um pouco para pensar qual seria o próximo local que ele iria procurar. Do banco que ele sentara, conseguia ver uma parte dos fundos do teatro, que estava mais escuro do que ao redor. Enquanto olhava, pensou ouvir alguma coisa e resolveu ir lá ver se sua amada estava lá.
Chegando bem perto, sentiu mais um daqueles calafrios que ele conhecia. Era como se fosse uma ordem para ele não prosseguir em frente, ir embora. Com um pouco de relutância, não quis saber e continuou. Quando ouviu um barulho de algo se abrindo, se escondeu atrás de um muro bem perto e percebeu que ali, na parte de trás do teatro, havia um alçapão que provavelmente dava para um porão, bem embaixo do teatro.
Espiou pelo canto do muro e viu o alçapão se destrancar e abrir. Sob aquela lua sinistra, uma sombra imensa apareceu. King viu que não era o amor de sua vida, mas conhecia aquela pessoa. Aqueles 120kg de carne humana alí naquele lugar só poderia ser de uma pessoa: Emerência.
Ainda sentindo calafrios estranhos, resolveu esperar um pouco mais escondido. King poderia ter ido lá e perguntado para Emerência se ela tinha visto Victoria, mas por alguma razão não queria. A sombra de Emerência parecia estranha pra ele, como se emanasse algo diabólico. A lua não mentia.
Durante o ano em que conheceu Victoria, King descobriu que aquele teatro era realmente especial. A quantidade de shows não era muito grande, mas todos os shows eram incríveis, principalmente os feitos em datas comemorativas como o natal. King soube também que toda essa qualidade era concedida apenas por duas pessoas: Laszlo, o Mestre de Marionetes, e sua esposa Emerência. Desde então, para ele os dois eram seres humanos incríveis, misteriosos e fantásticos.
King, ainda escondido, viu que ela estava puxando um carrinho e estava com uma espécie de bolsa de ferramentas na cintura. O que seria aquilo? Enquanto Emerência caminhava pelas ruas mais estreitas de Budapeste, King seguia espionando-a. Ele pensou no que aquela mulher estaria fazendo, e se tinha haver com o sucesso com que faziam o teatro. Quem sabe ele não poderia descobrir algo valioso que sua amada havia encontrado.
Já éra bem tarde da noite, quando Emerência parou em uma das vielas ao perceber que havia um mendigo dormindo no chão. King seguiu atrás e ficou com pena daquele homem, sujo, doente e sozinho no chão, em uma noite de natal.
Emerência começou a andar bem de leve, sem fazer nenhum barulho, em direção ao mendigo. Enquanto chegava cada vez mais perto, foi colocando a mão na bolsa de ferramentas em sua cintura e tirou uma faca. King, ao ver isso, ficou um pouco desesperado. Pensou:
– Emerência, o que você está fazendo com essa faca?
A adrenalina que correu pelo corpo de King fez ele até esquecer um pouco de sua busca por Victoria. Continuou a espreitar nas sombras e viu Emerência enfiar a faca rapidamente no peito do mendigo, que morreu rapidamente. Emerência então deixou a faca enfiada no peito do mendigo e rapidamente pegou um saco, embrulhou o corpo do mendigo e o colocou no carrinho.
Não havia sangue em volta. A mesma faca que matou o mendigo, ficou enfiada para que o sangue não jorrasse para fora enquanto Emerência o embrulhava no saco. King ficou praticamente congelado com a cena. Como era estranho… Como era estranho ver uma vida se escorregar e acabar… Como era estranho que naquela escuridão, o sangue do morto era negro, e não vermelho.
Emerência saiu tão rapidamente do local como tinha chegado. Era melhor que ela saísse antes de ser pega em flagrante. De novo entre as ruas escuras e velhas da região, ela continuou seguindo até chegar de volta no teatro. Perto do alçapão, em uma escuridão mais sombria do que o normal, ela tirou o corpo do carrinho, abriu o alçapão e adentrou pelas suas escadas escuras.
Então King pensou, como se estivesse hipnotizado:
– Emerência… Ninguém deve saber disso. Só a lua e eu somos testemunhas de tal ato. E nenhum de nós dois vai contar nada disso.
E pensou o pior:
– Por que Emerência fez isso? Victoria… Ela veio aqui mais cedo… Ela… desapareceu… Não pode ser… Emerência não fez isso…
Enquanto olhava para o alçapão aberto, King estava congelado, em choque, com aquela possibilidade em mente. Depois de um minuto, ele não conseguia suportar a ideia de que algo tão ruim pudera acontecer com sua amada e em um misto de coragem e desespero, correu em direção ao alçapão. Olhou para dentro e tudo estava escuro.
Adentrou em busca de sua amada. Quando chegou lá embaixo, viu o horror, mas não viu Emerência. Onde ela poderia estar? E então King caiu desmaiado com um golpe na cabeça que Emerência, de um canto escuro, acertou na cabeça dele.