Prólogo
“O mundo é um lugar melhor para se viver porque contém seres humanos que desistem da facilidade e da segurança para fazer o que acreditam valioso. E eles fazem o inútil, o bravo, o nobre, o divinamente bobo e as coisas mais sábias que são feitas pelo Homem. E o que provam a si mesmos e aos demais é que Homens não são criaturas de hábito, não são autômatas em suas rotinas, mas na poeira em que são feitos há também o fogo, aceso para sempre pelos grandes ventos do céu.” Walter Lippmann, 1997
Mount Rainier National Park, 1925. Um grupo de montanhistas posa para foto no topo do Pinnacle Peak. O sorriso no rosto do grupo que ilustra a capa deste livro esconde os possíveis riscos que eles podem ter encontrado no caminho: um machucado grave após uma queda, uma noite dormida no topo sem abrigo por não encontrar a descida ou uma tempestade que se forma sem anúncio.
Escalada é uma atividade que requer habilidade, comunicação e confiança. Jon Krakauer, em seu livro No ar Rarefeito, diz que com “suficiente determinação, qualquer tolo consegue escalar uma montanha. O truque é sair de lá com vida.”. Grande parte dos riscos atrelados ao montanhismo está em garantir uma relação de confiança e respeito entre os membros de uma expedição, sendo um fator importante na segurança de todos. Um desentendimento real pode colocar a perder anos de planejamento e dedicação. Em condições extremas, escaladores só prosseguem para o cume de uma montanha se existe a confiança total em seus equipamentos e seus parceiros. É preciso se comunicar de maneira clara e objetiva, para a jornada seja controlada e segura.
Quando há riscos reais envolvidos, erros podem ser fatais. Na montanha não há títulos, ela não exerga quão bom você já foi um dia e nem se preocupa o quanto você está sofrendo. A conquista de uma escalada é, sobre tudo, um trabalho em equipe, e somente àqueles que se chegam ao limite é dada a visão de um mundo novo, onde muitas vezes nenhum outro homem esteve.
Todas as habilidades são postas à prova durante uma aventura dessas, e a sua capacidade de suportar o estress e o sofrimento que dias de escalada empregam no grupo é o diferencial entre uma jornada de sucesso, e um possível desastre. Cada qual com seus atributos, cada qual com sua parcela de valor. Todos imprescindíveis para se chegar ao cume.
Na parte física, a escalada é um passatempo intellectual paradoxal em que se deve pensar com o corpo. Cada movimento deve ser trabalhado em termos de um jogo de xadrez com seu corpo. Um erro pode ter consequências imediatas, embaraçosas e possivelmente doloridas. Por um breve momento, se é diretamente responsável por suas ações.
Já escalo há alguns anos, e inspirado em grandes nomes como Tommy Cadwell, Sasha DiGiulian ou Andy Kirkpatrick, já tive minha cota pessoal de desafios e aventuras na montanha. Inúmeras vezes, em alguma situação de risco, me questionei se não estava indo longe demais, ou se não era a hora de voltar pra casa. Aprendi a controlar um medo irracional de altura e pude aproveitar algumas das melhores experiências da minha vida escalando. Tão importante quanto chegar ao topo de uma montanha, é o processo envolvido em planejar, agir, descer e comemorar um dia inteiro com amigos em que você confia sua vida.
Vejo grandes similaridades entre um grupo de escalada, formado por pessoas com habilidades distintas uns dos outros, unidos pelo objetivo de ascender uma montanha, alcançando o sucesso, e o ambiente moderno de trabalho.
Este é um livro sobre times, sobre confiança e sobre o que nos espera no mundo complexo das relações humanas. Não há formulas mágicas para guiar o trabalho em equipes, e o esforço a ser desempenhado se compara às maiores ascensões uma pessoa possa almejar. Juntos, acredito que podemos nos preparar para novos desafios, e quem sabe alcançar montanhas nunca antes escaladas.